Spike2

Lá pelos seis anos de idade, meu filhos menor, em meio aos nossos inúmeros gatos, me declarou com olhos tristes – “minha vida não tem sentido sem um cachorro”. Bem, se ele me declara isso aos seis anos, saio eu correndo atrás de um cachorro. Gosto muito de cachorros vira-latas e me agrada a ideia de adotar. Nossa primeira adoção foi a Belinha, uma típica SDR (Sem Raça Definida) bege, com focinho escuro e rabinho alegremente enrolado, pequena, com uma vaga lembrança de um Fox. Muito tímida a princípio, se revelou uma escavadora feroz do jardim. Meu lindo jardim foi virando um campo minado cheio de crateras e de plantas que, ao invés de estarem com as raízes na terra como sempre, se apresentavam desgrenhadas e com raízes nuas e destroçadas, para meu desespero. Falava com o veterinário e ele me dizia: quando ficar adulta passa, depois dos dois anos. Desde que o “sentido” da vida de meu precioso filho estivesse garantido, o que era um jardim a ser recuperado? Seguimos em frente já muito apegados aos seus lindos e ternos olhos castanhos e realmente, ela foi se acalmando. Porém, desenvolveu uma mania de fugir. Bastava uma fresta e ela saía como uma chispa a explorar a vizinhança. Era um galgo de corrida – podíamos nos esfalfar atrás dela sem a menor chance de alcançá-la ou vê-la retornar antes que provasse que era, definitivamente, uma criatura livre. Todos os vizinhos conheciam a Belinha.

– Está procurando a Belinha? Vi ela ali atrás no sítio do vizinho.

– A Belinha fugiu e está perdida lá no asfalto.

– A Belinha? Não vi hoje.

Isso foi durante um ano. Reforcei o portão, tomávamos todo o cuidado, mas acho que a bichinha atravessava paredes e cercas, pois sempre fugia. Até que um dia não voltou mais. Procuramos muito, cansamos de perguntar, mas desta vez ninguém tinha notícias da Belinha. Nunca mais a vimos. Quero crer que na sua simpatia alguém tenha se encantado com ela e que nossa Belinha tenha tido um final feliz em algum lugar sem perigos.

Depois de um tempo, o papo da “vida que não tem sentido sem um cachorro” voltou e nosso veterinário nos informou de uma cachorrinha que tinha sido abandonada para morrer, ela e o irmãozinho dentro de um saco de lixo fechado, só ela tinha sobrevivido. Fomos ver a pequena e… bem, todos os bichos são lindos, mas a Florzinha era… uma mistura de, como dizia o nosso veterinário, Cruz-Credo com Deus-Me- Livre. Tinha um pelo misto preto, que não era nem liso, nem crespo, como se fosse de dois cachorros diferentes, os dentes tinham a arcada inferior projetada para fora e havia um arremedo de barbicha – talvez de algum parente distante. Quando fomos vê-la, ela percebeu onde tinha que conseguir uma casa e se enrolou toda trêmula nas pernas de meu filho e o olhou com aqueeeeeele olhar que só um cachorro abandonado pode ter. Meu veterinário arrematou com a frase que funcionou como um raio comigo: – Não estamos conseguindo doar, todo mundo acha a bichinha muito feia, não sei o que vai acontecer com ela. Eu olhei para ela e imediatamente tomei as dores da criatura: – Feia? Que nada, ela é linda. Vamos levá-la e vai se chamar Nega Flor.

Novamente a tímida pequena, assim que se sentiu confiante e “em casa” se revelou elétrica e agitada. Adeus jardim outra vez e novamente tínhamos uma fujona de mão cheia. Mas era mais calma e doce que a Belinha e rapidamente se encaixou em nossa vida. Cortei o pelo desgrenhado dela, dei uma boa ração, vacinas e cuidados e ela ficou, digamos, decente. Porém, Florzinha não chegou aos dois anos. Estávamos numa nova casa, mais perto do asfalto e numa de suas fugas, foi atropelada. Pelo menos desta vez descobrimos o que tinha acontecido e que tinha sido enterrada.

Depois disso me fechei aos cachorros, estava decidida que não queria perder mais nenhum. Animais de estimação são um aprendizado de perdas. Acho que parte de sua missão conosco é nos ensinar sobre os ciclos de vida e morte e, principalmente, que podemos sobreviver e curar o coração.

Mas, meu filho menor depois de um tempo sem falar no assunto “cães” me declarou decidido: “não posso viver sem um cachorro”. Arredia, eu disse “vamos ver”. Então minha amiga Luciana, dona de um doce Golden Retriever que tinha recentemente cruzado com uma linda fêmea e estava para ser pai de uma grande ninhada, resolveu presentear meu filho com um filhote e recebemos o Spike em janeiro de 2010. Ah, o Spike é um príncipe! Enorme, peludo e com aquele olhar doce dos melhores cachorros, tem enchido nossa vida de presença. Eu diria que ele é um cavalo contido num corpo de cão. Ou será que um urso? Ele é um cão de filme. Não, não, de propaganda de ração, que vem correndo cataploft, cataploft, cataploft, com a juba se movendo ao vento e patas poderosas deixando a marca no chão. Nunca quis um cão grande, mas adoro ter um. Você pode abraçá-lo e quando ele está com você em silêncio é uma presença que enche a sala. Ele é o nosso guardião e nosso herói, pois já salvou o Peludo (veja o post Peludo, o Karma Cat) e a Violeta de se afogarem na piscina. E sempre que alguém aparece, ele corre apanhar sua bolinha e vem com ela na boca e uma pergunta nos olhos:

– Vamos brincar?

É claro que ele também teve seu tempo de escavar o jardim e fazer “peraltices”, mas quem liga? Depois destes três cachorros amados, tenho que concordar com meu filho: a vida não tem sentido sem um cachorro!

Spike e sua indefectível, amada e detonada bolinha azul.

Spike e sua indefectível, amada e detonada bolinha azul.